segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O que é Letramento - Magda Soares

Letramento em texto didático: o que é letramento e alfabetização

Analfabeto é aquele que é privado do alfabeto, a que falta o alfabeto, ou seja, aquele que não conhece o alfabeto, que não sabe ler nem escrever. Analfabetismo é o modo de proceder como analfabeto. Alfabetizar é tornar o indivíduo capaz de ler e de escrever. Alfabetização é a ação de alfabetizar, de tornar alfabeto.
É nesse campo semântico que surge a palavra letramento. Na verdade, conhecemos a palavra letrado que significa versado em letras, erudito. Conhecemos também a palavra iletrado que significa não ter conhecimentos literários.
A palavra letramento é nova em nossa língua e surgiu com a autora Mary em seu livro “No mundo da escrita: uma perspectiva psicolingüística”, sendo em seguida usada em diversos livros, muitos de educação.
O termo letramento surgiu porque apareceu um fato novo para o qual precisávamos de um nome, um fenômeno que não existia antes. Fomos buscar a palavra letramento na palavra inglesa literacy que significa condição de ser letrado. Essa palavra é do mesmo campo semântico que a palavra inglesa literate, que significa pessoa que domina a leitura e a escrita. Pessoa letrada é aquela que aprende a ler e a escrever e que passa a fazer uso da leitura e da escrita, a envolver-se em práticas sociais de leitura e de escrita, ou seja, que faz uso freqüente e competente da leitura e da escrita. A pessoa letrada passa a ter uma outra condição social e cultural, muda o seu lugar social, seu modo de viver, sua inserção na cultura e conseqüentemente uma forma de pensar diferente. Tornar-se letrado traz conseqüências lingüísticas, cognitivas.
Letramento é o estado ou a condição que adquire um grupo social, ou um indivíduo, como conseqüência de ter se apropriado da escrita e de suas práticas sociais. Apropriar-se da escrita é torná-la própria, ou seja, assumi-la como propriedade. Um indivíduo alfabetizado, não é necessariamente um indivíduo letrado, pois ser letrado implica em usar socialmente a leitura e a escritura e responder às demandas sociais de leitura e de escrita.
Uma estudante norte-americana, de origem asiática, Kate M. Chong, escreveu um poema chamado O que é Letramento em 1996. Nele, a autora afirma que letramento não é alfabetização, mas que é prazer, é lazer, é informar-se através da leitura, é usar a leitura paraseguir instruções, é ler histórias que nos levam a lugares desconhecidos, é usar a escrita para se orientar no mundo, é descobrir-se a si mesmo pela leitura e pela escrita. O poema mostra que letramento é muito mais que alfabetização, é um estado, uma condição de quem se envolve nas numerosas e variadas práticas sociais de leitura e escritura.
Mas afinal, por que surgiu a palavra letramento? Palavras novas aparecem quando novas idéias, novos fenômenos surgem. À medida que o analfabetismo vai sendo superado, que a sociedade vai se tornando cada vez mais grafocêntrica (centrada na escrita), um novo fenômeno se evidencia: o de que não basta apenas aprender a ler e a escrever, mas, sobretudo, adquirir competência para usar a leitura e a escrita, para envolver-se com práticas sociais de escrita. Nesse contexto, faz-se necessário alfabetizar letrando, ou seja, ensinar a ler e a escrever no contexto das práticas sociais da leitura e da escrita, de modo que o indivíduo se torne, ao mesmo tempo, alfabetizado e letrado.
Letramento envolve leitura. Ler é um conjunto de habilidades, de comportamentos e conhecimentos. Escrever, também é um conjunto de habilidades e de comportamentos, de conhecimentos que compõem o processo de produção do conhecimento. Nessa perspectiva, há diferentes tipos e níveis de letramento, dependendo das necessidades, das demandas, do indivíduo, do seu meio, do contexto social e cultural.
Em uma notícia de jornal, foi relatado que o juiz de uma cidade submeteu candidatos a prefeito e vereador a um teste de alfabetização, baseado na lei que proíbe analfabetos de serem candidatos a cargos eletivos. Para o juiz, alfabetizado era aquele que possuísse o primeiro grau completo e preenchesse formulários sem dificuldades. O juiz definiu ainda o nível do texto que o candidato deveria ser capaz de interpretar e o critério de correção das respostas dos candidatos deveriam pelo menos interpretar um texto de jornal infantil. Sendo assim, demonstrou ter dois conceitos de alfabetização. O primeiro é o conceito genérico, isto é, aplicável a qualquer pessoa. O segundo é o conceito específico, aquele que é aplicável às pessoas que exercem a função de prefeito ou vereador. Cerca de 20 dias depois, foi noticiado que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) foi contrário ao conceito de alfabetização do juiz, considerando que os candidatos eram alfabetizados e concluíram algumas sérias do primeiro grau. O juiz e o TRE tiveram diferentes concepções de alfabetização. O juiz avaliava o letramento, enquanto o TRE avaliava a alfabetização.
A comparação dos critérios utilizados pelo Censo aqui no Brasil e os critério utilizados em países do Primeiro Mundo é esclarecedora. Nos países desenvolvidos, a preocupação é com os níveis de letramento, enquanto no Brasil prevalece o índice de alfabetização. As condições necessárias para o letramento são primeiramente uma escolarização real e efetiva do aluno, secundariamente, que haja disponibilidade de material para leitura.
Letramento: como definir, como avaliar, como medir?
Avaliar o letramento de um indivíduo ou de uma sociedade cosntitui-se um desafio.
Como poderemos buscar índices de níveis de domínio da habilidade de leitura e escrita e dos seus usos em práticas sociais? A maior dificuldade em se avaliar o letramento está na questão de primeiramente definirmos letramento, para a partir dela, determinar os critérios para avaliá-lo.
Mas que critérios utilizaremos visando as diferentes situações aos quais os sujeitos estão inseridos?
Esta não é uma tarefa muito fácil se tivermos em vista que o letramento cobre uma vasta gama de conhecimentos, de habilidades, capacidades e funções, tornando-se difícil de contemplarmos todos esses aspectos em apenas uma definição. O letramento possui duas dimensões, que são no mínimo paradoxais, quais sejam a dimensão individual e a dimensão social. Na dimensão individual, o letramento é visto no âmbito pessoal, eanquanto na dimensão social, o letramento é visto como um fenômeno cultural.
Com relação à Dimensão Individual do Letramento fica difícil a sua definição, pois letramento implica em diversas habilidades. A primeira dificuldade entra na questão de saber ler e escrever. Não pode-se confundir e acreditar que, necessariamente, quem sabe ler, sabe escrever, pois não é exato. Temos que ter em vista as peculiaridades de cada uma dessas habilidades.
Por leitura, entende-se que ultrapassa a decodificação de letras. Leitura implica diversas habilidades cognitivas e metacognitivas, tais como captar significados, interpretar seqüências de idéias ou de eventos, analogias, comparações, linguagem figurada, relações complexas, análogas, e ainda, a habilidade de fazer previsões iniciais sobre o sentido do texto, entre tantas outras habilidades.
Por escrita, na dimensão individual de letramento, entende-se um conjunto de
habilidades lingüísticas e psicológicas, como a habilidade de registrar unidades de som até a capacidade de transmitir idéias ao leitor pretendido. É um processo de expressar idéias e organizar o pensamento em linguagem escrita. O letramento é constituído por competências distribuídas de maneira contínua, cada ponto ao longo desse contínuo indicando diversos tipos e níveis de habilidades, capacidades e conhecimentos que podem ser aplicados a diferentes tipos de material escrito. Essas definições, considerando a dimensão individual, determinam quais habilidades de leitura e de escrita caracterizam uma pessoa letrada?
Desde a Dimensão Social do Letramento este é o conjunto de práticas sociais ligadas à leitura e à escrita em que os indivíduos se envolvem em seu contexto social. As relações entre letramento e sociedade não podem ser dissociadas dos seus usos, de formas empíricas que elas realmente assumem na vida social.
Na perspectiva liberal de letramento, este é definido em termos de habilidades necessárias para que o indivíduo funcione adequadamente em seu contexto social. Vem daí o termo letramento funcional, definido como sendo os conhecimentos e habilidades de leitura e de escrita que tornam uma pessoa capaz de engajar-se em todas aquelas atividades nas quais o letramento é normalmente exigido em seu contexto social.
Dessa forma, o letramento tem um enfoque de funcionalidade, que implica em adaptação dos indivíduos. O letramento é, assim, considerado como responsável por produzir resultados importantes no desenvolvimento cognitivo e econômico, mobilidade social, progresso profissional e cidadania.
Nesse modelo, o letramento aumenta a consciência dos sujeitos sobre as suas vidas e sua capacidade de lidar racionalmente com decisões e dessa forma poder conscientizar-se da sua realidade até transformá-la.

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